
Estranho no ninho
Procurando um carro novo?
Que tal um luxuoso Maybach por US$ 800 mil, ou um superesportivo Porsche Carrera
GT por US$ 900 mil? É verdade, esses sonhos de consumo estão
com preço um pouco salgado. Recomendo então um Mini Cooper S
por 'módicos' US$ 58 mil. Não é tão exclusivo,
mas todos olharão com inveja para você nas ruas.
Caindo na real, pode parecer acintoso falar de carros com esses preços
em um país onde 60% das vendas se concentram no segmento de compactos
com motor 1.0. Para os entusiastas de automóveis, porém, não
deixa de ser um alento saber que esses modelos estão à disposição,
caso um dia acerte a Sena acumulada. Basta fazer o pedido às importadoras
oficiais ou independentes. São sonhos muito, muito distantes, mas não
impossíveis de serem realizados.
Uma boa medida de quão difícil é comprar um carro de quase US$ 1 milhão é que pouquíssimos exemplares dessa estirpe foram vendidos por aqui desde a reabertura das importações, no começo dos anos 90. O Porsche Carrera GT, disponibilizado no mês passado aos brasileiros pela Stuttgart (importadora oficial), dificilmente achará algum comprador. Já os outros modelos da Porsche, com preços entre US$ 90 mil e US$ 277 mil, somam mais de 500 unidades vendidas pela via oficial.
A Mercedes brasileira oferece a possibilidade de encomendar qualquer modelo de seu portfólio, incluindo as limusines da linha Maybach e o superesportivo SLR McLaren, ambos de US$ 800 mil. Nem mesmo os poucos multimilionários brasileiros se habilitaram a tamanha ousadia consumista. Para eles, há diversas opções bem mais em contra dentro da marca alemã, com preços na casa de US$ 200 mil (Classes S, SL e CL).
Entre as montadoras que oferecem alto luxo, a britânica Rolls Royce aventurou-se no Brasil na década de 1990, e emplacou apenas dois carros: um Silver Spirit, em 1993, e um Silver Spur III, em 1994. Sua ex-parceira Bentley teve mais sorte (ou preços um pouco menos assustadores): sete modelos de luxo vendidos entre 1993 e 1996. O Grupo Regino, importador das duas marcas, perseverou até 1998, mas acabou desistindo. E, naquela época, a relação entre dólar e real ainda era de um para um.
Outras marcas exclusivas
chegaram ao país sem sucesso. O Grupo Gandini, que representa a coreana
Kia Motors, chegou a trazer, em meados dos anos 1990, carros das marcas Bugatti,
Lamborghini e Lotus. Vendeu duas Bugatti EB 110, três Lamborghini Diablo
e uma Lotus Esprit S4. O maior sucesso dessa fase foi o pequeno conversível
Lotus Elan S2 (nove unidades), bem mais barato que os cupês acima mencionados.
Ferrari tem melhor sorte
Melhor sorte tem a Ferrari, graças ao enorme prestígio que seus carros herdam dos bólidos da Fórmula 1. A marca chegou ao Brasil em 1993 e desde então teve mais de 260 unidades vendidas pelo importador oficial, e dezenas por lojas independentes. Mas até hoje apenas uma Ferrari topo de linha foi vendida aqui - a F50, em 1998. Uma F40 veio para o Salão do Automóvel de 1990, mas ficou nas mãos da Fiat. Fontes do mercado de importados garantem que uma Enzo Ferrari (sucessora da F50, apresentada com pompa no Anhembi em 2002) está a caminho. Seu preço? US$ 1,5 milhão, bem mais que os outros modelos da marca, com preços entre US$ 330 mil (360 Modena) e US$ 480 mil (575M Maranello). A também italiana Maserati, controlada pela Ferrari, já teve mais de 80 cupês e conversíveis comercializados no Brasil, com preços na faixa de US$ 200 mil. Já o sedã esportivo Maserati Quattroporte foi um fiasco de vendas.
Outro esportivo mítico que aportou por aqui foi o BMW Z8, conversível com motor V8 5.0 de 400 cv, mais conhecido por sua participação no filme O mundo não é o bastante, da série James Bond. Algumas unidades foram vendidas entre 2001 e 2002, com preço, na época, de R$ 590 mil. Mas a importadora não informa quantos modelos foram vendidos, menos ainda quem foram seus compradores.
Por sinal, mistério é palavra de ordem nos negócios com esses carros de preços exorbitantes. Segundo um executivo do setor, os automóveis são comprados por grandes empresários ou fazendeiros, e, às vezes, por figuras muito bem sucedidas do mundo artístico e esportivo. Alguns são guardados como peça de coleção e raramente são usados. Há vários casos de bólidos que só rodam em pistas particulares de grandes latifúndios. Quem compra um carro de US$ 1 milhão não quer exposição por temer seqüestro e também para não chamar a atenção do Leão.
Importadores independentes - É verdade que as montadoras e importadoras oficiais disponibilizam por encomenda algumas das mais espetaculares máquinas, a preços estratosféricos. Mas, no final das contas, quem acaba trazendo os carros exclusivos por encomenda com algum sucesso são os importadores independentes. Das dezenas de lojas que atuavam na febre dos importados dos anos 1990, restaram muito poucas - seis na capital paulista e algumas em outras grandes capitais brasileiras.
Segundo o lojista Eduardo
Barreto, da Barreto Import (loja na região dos Jardins, em São
Paulo), os poucos estabelecimentos que restaram comercializam cerca de 150
carros por ano, a maioria vinda de Miami. Antes da disparada do dólar,
a soma passava de mil unidades. 'Com a retração nas vendas de
importados por parte de montadoras e representantes oficiais, as lojas independentes
são a melhor opção para a compra de modelos exclusivos,
com preços competitivos dentro da realidade dos importados', afirma
Ibrahim Cotait Neto, da loja Autolex, também em São Paulo.
Atualmente, Chevrolet Suburban 1500 é um dos maiores sucessos
De acordo com Barreto, que já foi presidente da extinta Abraciva (Associação dos Importadores Independentes), um dos maiores sucessos nos dias de hoje é o Chevrolet Suburban 1500, um utilitário-esportivo grandalhão, com sete lugares, bem típico do mercado norte-americano. O preço gira em torno de US$ 90 mil, e alguns clientes optam pela sua versão GMC (outra divisão da GM nos EUA), o Yukon. Outro campeão de vendas é a picape Ford F-150, de porte semelhante ao de nossa F-250, mas com acabamento sofisticado e visual mais arrojado. Os preços variam de US$ 70 mil a US$ 85 mil, dependendo da versão e motorização. Na mesma faixa de preço está a Dodge Ram, picapona esportiva que chegou a ser apresentada pela DaimlerChrysler no Salão do Automóvel de 2002, mas teve os planos de importação adiados.
Jipões americanos e japoneses são muito requisitados nas lojas independentes, já que não há opções semelhantes no mercado nacional. Entre os que vendem mais ultimamente estão Lexus RX 330 (da Toyota), Dodge Durango, Lincoln Navigator (da Ford), Cadillac Escalade (da GM) e até o brucutu Hummer H2.
Essas lojas também oferecem a possibilidade de buscar os esportivos dos sonhos de muitos marmanjos, como Chevrolet Corvette, Ford Mustang, Infiniti G35 (da Nissan), Lexus SC 430 e Nissan 350Z (que começa a ser importado oficialmente pela montadora na metade deste ano). Ou ainda modelos europeus de estilo charmoso como Mini Cooper S e Smart Fortwo. Essas lojas trabalham com pouquíssimos modelos em estoque. Em geral, a importação é feita sob encomenda e o carro já vem em nome do cliente. A maior parte dos veículos que enfeita os showrooms dessas importadoras é de modelos usados.
Quem compra um importado
por encomenda deve estar ciente de que os gastos serão grandes em qualquer
ocasião. Esses modelos bebem muito combustível e têm manutenção
complicada. No caso de defeitos (exceto de itens de troca mais corriqueira)
ou colisões, as peças terão de ser encomendadas, geralmente
com preços bem altos. Os lojistas costumam importar peças e
recomendar oficinas especializadas nesses modelos, sempre limitadas aos grandes
centros urbanos. Além disso, gasta-se demais com seguro, impostos e
perde-se muito na revenda. São recomendados somente para endinheirados
para quem a paixão não tem limites nem preço
Porsche Carrera GT: US$900 mil
Em fevereiro, a importadora oficial da Porsche apresentou no Brasil o Carrera GT e fixou o preço para quem quiser encomendar uma das 1.500 unidades que serão feitas em apenas três anos de produção: US$ 900 mil. O bólido alemão tem motor 5.7 V10 de 612 cv, acelera de 0 a 100 km/h em menos de quatro segundos e chega a 330 km/h. O câmbio é manual de seis marchas e os freios são de um avançado composto cerâmico, com pinças de alumínio. Trata-se do Porsche mais nervoso da história.
Ferrari Enzo: US$ 1.500 mil
O bólido de rua que mais se aproxima das Ferraris das pistas é esta Enzo, que causou frisson no último Salão do Automóvel brasileiro. Com motor 6.0 V12 de 660 cv, voa a 351 km/h, velocidade superada apenas por esportivos especiais como o italiano Pagani Zonda C12 S e o sueco Koenigsegg CC8 S. Mais caro dos importados sob encomenda no Brasil, só teve um exemplar vendido, mesmo assim não confirmado pelo importador oficial.
SLR McLaren: US$ 800 mil
A homenagem da Mercedes ao mítico 300 SLR de 1955, em parceria com a escuderia inglesa McLaren, rendeu um dos mais impressionantes superesportivos da atualidade. O cupê SLR McLaren, com suas portas que se abrem para cima, abriga sob o capô um impressionante propulsor 5.4 V8 de 626 cv e 79,6 kgfm de torque. O resultado é um desempenho impressionante, com aceleração de 0 a 100 km/h em 3,8 s e máxima de 334 km/h. Se você pensa em desembolsar US$ 800 mil por ele, saiba que a fila de espera vai até o final de 2006.
Maybach 62: US$ 800 mil
A DaimlerChrysler relançou a marca Maybach em 2002 para combater as inglesas Rolls Royce e Bentley, hoje controladas por BMW e Volkswagen, respectivamente. A limusine Maybach 62 tem 6,2 metros de comprimento, pesa quase três toneladas e usa motor 5.5 V12 de 550 cv. Por dentro, é uma verdadeira sala de estar, das mais requintadas. A velocidade máxima é limitada eletronicamente a 250 km/h. Há uma versão mais curta, de 5,7 m.
Os campeões dos independentes
Conheça 10 dos carros mais vendidos pelas lojas de importados
DODGE RAM - US$ 70 mil
a US$ 85 mil.
Picapona de apelo esportivo, vendeu muito no Brasil até 1998, e agora
volta a receber encomendas, com motores a gasolina e diesel.
DODGE DURANGO - de US$80
mil a US$ 95 mil.
Utilitário-esportivo feito sobre a plataforma da picape Dakota, faz
sucesso na versão Hemi, com motorzão 5.7 V8 de 350 cv.
CHEVROLET CORVETTE 2002 - US$ 110 mil.
Mais famoso esportivo norte-americano, chega com mudanças radicais
no fim do ano. O atual ainda está nas lojas.
INFINITI G 35 - US$ 85 mil.
A divisão sofisticada da Nissan nos EUA emplacou esse belo cupê,
dotado de motor 3.5 V6 de 284 cv.
LINCOLN NAVIGATOR - US$ 130 mil a US$ 135 mil.
Maior utilitário-esportivo feito pela divisão de luxo da Ford
nos Estados Unidos, com espaço para sete pessoas. Tem motor 5.4 V8
de 300 cv.
HUMMER H2 - US$ 150 mil.
Versão civil do famoso jipão militar norte-americano, atrai
jipeiros endinheirados no Brasil. Usa motor 6.0 V8 de 330 cv.
CHEVROLET SUBURBAN K1500
- US$ 90 mil.
Espécie de Blazer alongada e atualizada, leva sete pessoas e hoje é
o modelo mais vendido pelos lojistas no Brasil.
LEXUS RX 330 - US$ 95
mil a US$ 100 mil.
Com esse jipão de luxo, a Toyota chacoalhou o mercado norte-americano.
Tem motor 3.3 V6 de 233 cv.
FORD F-150 - US$ 70 mil a US$ 85 mil.
Picape mais vendida nas lojas independentes, acaba de ser renovada nos EUA
e pode vir com três tipos de motor V8.
BMW MINI COOPER S - US$ 58 mil.
Versão apimentada do repaginado clássico inglês, usa motor
Tritec 1.6 16V de 163 cv fabricado no Paraná.
Quando a primeira foto extra-oficial do novo Mille chegou à redação, ninguém acreditou que aquela frente fosse pra valer. Pensamos ser mais uma montagem especulando como o carro ficaria. Aquela grade arredondada nos cantos simplesmente não conversava com o resto do projeto, de linhas retas. O editor Luiz Guerrero, nosso caçador de segredos, fez algumas ligações e ouviu do outro lado da linha que aquilo não era um chute. Quando enfim o carro foi apresentado, aqui na redação ninguém gostou muito do que viu. Responsável pelo site da revista, Marcio Ishikawa tratou de promover uma enquete na rede. Em três dias, 5200 internautas votaram e o resultado foi que 65,3% acharam o novo Mille feio. Somente 23,4% aprovaram o novo visual e 11,3% ficaram indiferentes.
A Fiat mandou o carro para ser testado e, no mesmo dia em que o Mille retornou da pista de teste, fui para casa com ele. Como saí tarde da redação, não pude notar a curiosidade das pessoas nas ruas. Mas, no dia seguinte, fui surpreendido pelas reações de quem via o carro. A bordo de outros veículos e nos pontos de ônibus, não eram poucas as pessoas que viravam o pescoço, apontavam e sorriam. Em um semáforo, o passageiro de um caminhão da Coca-Cola mandou: É o novo? Da hora! Passei em uma farmácia e fui abordado na fila do caixa. Aquele Mille é seu? Já fui a duas concessionárias para comprar o carro, mas ainda não estão vendendo, disse o ansioso dono de uma Fiat Elba. Mais tarde, parado no trânsito, outro motorista, ao volante de uma Towner, queria saber se o motor era o mesmo do antigo e quanto o novo iria custar. E dá-lhe elogio para a nova frente...
Segundo a Fiat, o objetivo das mudanças era deixar o Mille com visual mais robusto e atualizá-lo em relação aos lançamentos mais recentes da marca. De fato, a grade separada dos faróis por duas colunas verticais guarda certa semelhança com o Doblò, ou mesmo com o novo Panda italiano.
Abstraindo-se o visual, o carro é o mesmo bom e velho Mille com motor Fire de 55 cavalos. Internamente, as novidades estão no revestimento dos bancos e do teto e no quadro de instrumentos, que agora vem com hodômetro parcial digital. O contraponto para a falta de mudanças de grande porte pode vir do raciocínio dos mais fiéis ou otimistas compradores. Com 20 anos de estrada, desde os tempos do Uno, o Mille já foi mais que testado na fábrica e nas ruas. Todas as modificações no projeto já foram feitas. Não deixa de ser verdade.
Ao volante, o Mille tampouco reserva qualquer surpresa. O novo Mille Fire apresenta o mesmo comportamento de seu antecessor. A posição de dirigir é idêntica, com a mesma boa visibilidade. A direção é leve, apesar de não ter assistência hidráulica (um item que agora está disponível como acessório nas concessionárias). E a suspensão se conserva firme e estável, sem ser dura.
Na pista de testes, é o que já se esperava. O novo Mille Fire anda tanto quanto seu antecessor, testado na edição de fevereiro de 2002. Nas provas de aceleração, precisou de 17,8 segundos para ir de 0 a 100 km/h, enquanto sua versão anterior gastou 17,3 segundos. Na retomada de velocidade de 40 a 80 km/h em terceira marcha, que simula uma ultrapassagem no trânsito, levou 9,8 segundos, contra 10,2 segundos em 2002. No consumo também não houve novidade. As médias do novo Mille foram de 9,5 km/l na cidade e 15,9 km/l na estrada, e as do antigo, 10 e 15,6 km/l, respectivamente.
A boa notícia que acompanha a nova versão é que, apesar das melhorias, a Fiat não aumentou o preço do carro. O Mille Fire duas portas básico continua o carro mais barato do Brasil, com o mesmo preço de 15990 reais do modelo anterior. A versão de quatro portas permanece por 17130 reais. A Fiat considerou os 75 milhões de reais gastos na atualização como investimento estratégico.
Comparando as tabelas dos rivais Celta e Gol, nas versões correspondentes, o Mille custa de 1000 a 3000 reais mais barato. Ou seja: assim como na versão anterior, o forte do novo Mille é a relação custo/benefício, um poderosíssimo argumento de venda nesse segmento de entrada, no qual 500 reais decidem a compra. O design tem importância secundária. Tanto que o novo Mille, desenvolvido no Centro Estilo da empresa em Betim (MG), nem foi submetido à opinião dos consumidores, as chamadas clínicas. Segundo a Fiat, foram feitas apenas pesquisas internas.
O Mille flerta com os jovens que ainda não têm sua independência financeira e com os aposentados, normalmente comedidos nos gastos. Também não despreza o pessoal que usa o veículo para trabalhar, como vendedores, frotistas e taxistas. A fidelidade desses públicos tão heterogêneos entre si motivou a venda de 96500 unidades do Mille em 2003. Com todo esse carisma, alguém aí tem coragem de mexer com ele?
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